Qual o valor político do emprego?

Teoria

É comum a gente esquecer de ser materialista-histórico pelo simples fato de que vivemos em um mundo bastante idealista, que valoriza demais os elementos culturais da sociedade. Esta é uma tentativa de olhar com olhos materialistas sobre a questão do emprego.

O emprego no Brasil é mal pago, os empregados submetidos a péssimas condições, que incluem horas extras não pagas, segurança insuficiente, atrasos no pagamento, assédio moral, entre outros. Podemos até chamar isso de cultura, mas são as condições materiais em que a maior parte dos brasileiros vivem. Sua realidade dura até demais, de um país pobre, onde as pessoas trabalham muito e recebem muito pouco, muito menos do que a riqueza que geram, e vale a pena fazer uma pausa para descobrir quão pobre é o país e o seu estado nesse teste.

A realidade material é que o emprego é uma merda. uma grande bosta fedida, se a gente parar com as meias palavras e as ilusões ideológicas que “O trabalho liberta“. Ford e sua organização do emprego baseada em tratar o empregado bem o bastante para ele não se revoltar, para gostar do emprego e ser produtivo, “vestir a camisa da empresa”, nunca chegou ao Brasil e as relações de trabalho ainda tem espírito escravagista, e esse espírito é naturalizado o bastante para em um país tão pobre haver tanto espaço para reclamar que o salário mínimo é alto.

Se isso é o emprego, é importante perceber que a plataforma “contra o desemprego” tem o valor político do emprego. A cultura não acontece na nossa cabeça desligada da realidade, mas dependente dela, e por falhar em analisar a realidade a gente cai em ilusões como acreditar que o povo vai sempre apoiar um programa contra o desemprego.

Se o emprego é uma bosta, ele só tem valor quando é condição de sobrevivência. Agora, início de 2020, com 24% de desemprego e subemprego, ela tem força, vinda da necessidade de sobrevivência. No fim do governo Dilma, com desemprego a menos de 6%, não valia nada.

E se o desemprego cair, vai perder valor de novo.

A plataforma não pode ser “contra o desemprego”.
Precisa ser a favor de uma outra forma e dignidade do trabalho.
A classe trabalhadora está acostumada a engolir humilhação para manter emprego. Sem qualificar o trabalho não dá pro emprego ser objeto de desejo sem a fome na porta.

Então, a estratégia política não pode ser levantar uma bandeira “contra o desemprego”. Precisa ser a favor de uma outra forma e dignidade do trabalho, porque o trabalhador sabe muito bem que o emprego é uma bosta, e por isso, sempre que sua condição de segurança melhora um pouco tenta escapar dele.

A classe trabalhadora está acostumada a engolir humilhação para manter emprego, mas sabe que está sendo explorada, e detesta ter que se submeter a essa exploração para sobreviver. Sem qualificar o trabalho o emprego só é objeto de desejo se a fome estiver na porta.

Esse é um dos motivos para a esquerda perder a capacidade de se comunicar com a “nova classe C”. Porque ela não tinha mais a fome na porta, mas a esquerda continuava a oferecer o emprego como saída.

Qualificar o trabalho passa pela desproletarização do trabalho. Abandonar o arranjo empresário + emprego = exploração + alienação. Parar de oferecer a exploração e a alienação para a classe trabalhadora como se fosse algo bom.

O canto da sereia da meritocracia, do empreendedorismo, é exatamente a libertação da relação de alienação do trabalho chamada emprego. Enquanto a esquerda oferecer apenas a possibilidade de ser explorado, ela não oferece uma solução para os problemas reais das pessoas.

Repare que esse texto diferencia “emprego” de “trabalho”. São coisas diferentes. O trabalho é a atividade humana necessária à vida, o emprego é uma das formas sociais que o trabalho pode ter. Ser contra o emprego não é ser contra o trabalho. Ser contra o emprego ser contra a exploração e a alienação, que são o que define essa forma social do trabalho, e buscar formas alternativas.

A alternativa que a meritocracia liberal propõe é a solução egoísta, individual, de manter a estrutura, mas mudar de posição nela: virar patrão e explorar o outro, em vez de ser explorado. As soluções que a esquerda precisa oferecer precisam ser solidárias, coletivas e revolucionárias. Em vez de manter a estrutura para que alguns possam subir, quebrar a estrutura, para que não precise haver exploração.

Abaixo listo algumas alternativas possíveis para a ação política que surgem da análise acima.

Práxis

EMPREGO MELHOR:

O mais fácil é oferecer ainda emprego, mas colocar recursos de estado para melhorar a qualidade das relações de trabalho, fortalecer sindicatos, voltar ao discurso de antagonismo burguês safado vs. proletário explorado, ter MTE1 e MPT2 fortes e atuantes.

O discurso precisa ser elaborado o bastante para demonstrar que não é qualquer emprego, ou emprego a qualquer custo. Mostrar que é o patrão que depende dos empregados para gerar riqueza, e por isso deve ser posto contra a parede, não adulado.

EMPREENDEDORISMO COLETIVO:

Promover a economia solidária, cooperativas, associativismo produtivo… Este discurso tenta se apropriar do empreendedorismo, mas tornar ele uma atividade coletiva, em vez de individual. Defende que juntando forças é possível fazer uma empresa sem empregados.

É possível criar formas de organização que dão autonomia para os trabalhadores/empreendedores, e por isso não produzem a proletarização. O MST faz isso muito bem, aliás.

Na era dos aplicativos em que estamos, faz sentido a gente pensar por exemplo em uma cooperativa de motoristas, que em vez de serem explorados pela Uber contrata o desenvolvimento de um aplicativo.

ESTATAIS POPULARES:

Criar pequenas empresas públicas, comunitárias, mas administradas pelos próprios integrantes. Por exemplo, empresas de serviços de limpeza em uma região da cidade, que contrate moradores dessa região e seja administrada por um conselho de trabalhadores.

Parece viagem, mas o projeto Pontos de Cultura fez quase isso. Estudem esse “case”3Resenha, PDF e livro.!

É possível implantar equipamentos públicos, como cozinhas comunitárias, centros culturais, serviços urbanos e outros nesse modelo. As grandes estatais são uma questão bem mais complexa pela escala.

EXPROPRIAÇÃO DE BURGUÊS SAFADO + ESTATAIS POPULARES:

Acabar com a mamata, parar de jogar dinheiro público em multinacionais, cobrar as dívidas bilionárias tomando empresas e as submetendo a gestão democrática. Isso é claramente o mais perto de revolução comunista possível dentro dos marcos do estado de direito burguês.

Vale lembrar que o nosso governo enterra quantidades assombrosas de dinheiro no setor privado, garantindo transferência de renda dos pobres para os ricos, o que justifica qualquer movimento de recuperar esse investimento para o bem público.

RENDA BÁSICA UNIVERSAL:

Abandonar o trabalho, dizer que os robôs vão fazer tudo, e implementar uma renda básica, que permita que a pessoa trabalhe para ter mais conforto, mas não precise ter um emprego para viver. Isso obrigará os burgueses safados a bajularem empregados, em teoria.

Com uma RBU, ninguém é mais obrigado aceitar um emprego horrível, e por isso o trabalho precisaria deixar de ser uma bosta. Vimos esse efeito acontecer em pequena escala com o Bolsa Família, em que muitas pessoas deixaram de aceitar qualquer oportunidade de exploração, horrorizando a classe média com a “preguiça” do trabalhador que não quer mais se submeter à exploração e humilhação.

Notas

  1. Ministério do Trabalho e Emprego, hoje chamado apenas de Ministério do Trabalho
  2. Ministério Público do Trabalho, ramo do Ministério Público que cuida de fiscalizar as relações de trabalho e coibir abusos.

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