Nas Linhas da Antiguidade

Divinópolis é uma cidade que nasceu no século XX. Não estou falando da emancipação ou da origem do povoamento, mas do nascimento do que costumamos chamar de Divinópolis: o conjunto de características, de pessoas, de ideias. E está morrendo no século XXI. Não que o espaço geográfico ou o nome na lista do IBGE vá desaparecer, mas está se tornando algo completamente diferente do que se identifica por “Divinópolis”.

Mas então, o que É Divinópolis?

É uma embriaguez de progresso. Um porre como poucos lugares são. Uma vertigem e uma voragem, uma urgência. Divinópolis foi menor que todas suas vizinhas, Cláudio, Itaúna, Itapecerica ou Pará de Minas, irrelevante como estas todas foram e algumas ainda são. Mas se quem prova do melado se lambuza; Divinópolis, a partir do momento que a linha de ferro, que as linhas da modernidade a desvirginaram de tempo; a Princesinha do Oeste bebeu ávida cada gota de devir e se manteve enamorada do futuro em um coito de gerações.

Divinópolis, menos importante que todas as cidades ao redor nos mapas de 1934.

Mas toda paixão tem seu fim, e a princesa cada vez mais frigidamente olha para o futuro. Talvez, diríamos, desencantada com as ressacas de que toda embriaguez é prenhe, mas infelizmente, e isto é pior, a liberdade fluida e alegre da adolescência teve que dar lugar a laços eternos, sofridos, de matrimônio que dizem que este lugar tem dono e que a obrigação matrimonial é servir apenas seus escravizadores esposos, sem mais aquela libertinagem de antes, de amar tresloucada todo migrante com um projeto de colonizar o futuro.

A princesa, ébria de paixão pelo novo, nunca teve pudor de botar abaixo o velho, de destruir e reconstruir, de buscar sempre o melhor, e hoje memorialistas e historiadores lamentam isto, esta falta de monumentos espalhados pela cidade. Coisas como identidade, memória, pertencimento, sempre terem sido consideradas menores, e esta ressaca acompanha toda discussão sobre o passado.

Mas ver o passado é perceber que Divinópolis abrigou sempre pessoas que moravam no futuro, e houve espaço para estas pessoas trabalharem para fazer desse futuro presente. Hoje, em uma das contradições mais curiosas que se pode achar, o espírito destes pioneiros é desonrado dia após dia por pessoas que repetem seus atos mas não preservam seu espírito, porque antes de mais nada, o espírito da modernidade, que veio nas linhas do trem e se incorporou à princesa, são valores, não ações. Valores que para permanecerem os mesmos, ao longo das várias metamorfoses da modernidade, precisam mudar sempre suas ações.

Em 1930 o mais moderno era a indústria. O Brasil, já atrasado, depois de ter perdido o trem da história, precisou pegar o próximo trem, varguista, que desembarcou por aqui através de figuras como X. Gontijo e Jovelino Rabelo.

A indústria, nos dois sentidos da palavra, fez de a Princesa se orgulhar de vários feitos, como fazer álcool de mandioca ou ostentar um aeroporto invejável. E, claro, assim como no resto do país, a indústria não veio sem opositores. Um país “agrário exportador”, com uma oligarquia rural monopolizando o poder político a ponto de surgirem aberrações éticas e estéticas como a “república do café com leite” não vai aceitar fácil que novos atores, pensando novas ideias, implementem novas políticas.

O progresso sempre teve oposição, mesmo em Divinópolis. A embriaguez do moderno foi apenas a derrota reiterada, ano após ano, por boas décadas, de oligarcas, reacionários, coxinhas, e outros, querendo uma cidade que satisfaça seus interesses mesquinhos de manutenção do status quo, em vez de uma cidade que esteja na vanguarda do país.

Porque a vanguarda, essa é perigosa. Ela atrai concorrentes, ela é estar entre os melhores, mais audazes, indo onde nenhum humano jamais foi e se expondo ao risco. Melhor simplesmente imobilizar capital, ter centenas ou até mesmo milhares de imóveis na cidade e esperar que a miséria geral faça deles, coronéis de terno branco, os donos da princesa, que a acorrentam na beira do fogão em vez de a deixar explorar os limites do possível.

Quando a indústria de base, o gusa, enfrentou sua crise, a crise o petróleo, mundial, a resposta foi clara, criativa e assombrosa. O investimento na confecção ressignificou a cidade, transformou suas relações de trabalho, transformou sua população, fez a princesa descobrir que tinha outras vocações ou, melhor ainda: que podia inventar outras vocações. Ensinou empreendedorismo a cada dona de casa autônoma que “faz facção”, descobriu que existe algo chamado turismo comercial, abriu portas, janelas e caminhos para a nova geração, que infelizmente parece ter tido medo de explorar. Divinópolis nunca fez a transição da confecção para a moda. Hoje, o esgotamento da confecção, a concorrência chinesa, assim como antes a crise do petróleo, exige soluções novas e inovadoras. Que só podem surgir em uma cidade aberta ao novo. Uma cidade sem donos, sem latifúndios. Uma cidade chamada Divinópolis. Mas Divinópolis está morrendo.

Os planos urbanísticos arrojados de antes, são hoje meros condomínios fechados pasteurizados. A intelectualidade jornalística de Ataliba Lago ou X. Gontijo, hoje é venda de pauta descarada para quem paga mais. O trabalho de políticos para trazer a estrada de ferro é hoje o descaso criminoso com as conexões de internet. O incentivo ao empreendedorismo em larga escala virou a inglória negociação fadada ao fracasso para “trazer uma empresa” para cá.

Divinópolis está morrendo, porque está virando a Itapecerica de 1890. Está, em vez de perseguir o futuro, insistindo nas soluções que deram certo para nossos ancestrais. A agricultura, para Itapecerica, a indústria burra hoje.

Há mais de dez anos está claro que o mundo se reorganizou. Que os produtos de serem feitos em massa: a confecção que não é moda, o serviço que não é online, o produto que não tem valor agregado; tudo isso se consegue no exterior mais barato. Tudo isso, é suicídio lento tentar investir como motor de uma cidade. Tudo isso é pedir para condenar a princesa à morte e ao claustro em uma cidade não mais fecunda, mas mãe de possibilidades natimortas.

O caminho é o digital, o conhecimento, o alto valor agregado, a inovação. Fazer o que apenas Divinópolis, faminta de inovação, pode com suas três universidades públicas, atuando em todas as áreas do conhecimento.

Mas o retrocesso é claro. Está na política, no jornalismo, nas praças, no discurso e, principalmente nas imobiliárias. Já não é mais uma cidade de visionários e sonhadores, que abraçam possibilidades e não tem medo de inovar, mas uma cidade que busca tornar a riqueza que a inovação anterior construiu em imóveis, seguros, estáticos, parados. Riqueza que não é  mais valor, que não circula de mão em mão, que não cria mais e mais valor a cada troca, em um ciclo virtuoso.

Estamos em uma cidade de conservadores, reacionários, medrosos, sem criatividade, sem audácia, que não é Divinópolis. Tanto é que ao ler isto você, ou está tentando negar a estagnação, ou concordando com o argumento, mas nunca, jamais aceitando que isto seja Divinópolis, que esta coisa parada possa ser chamada deste nome.

Esta nova cidade, parafraseando a Profª Batistina Corgozinho, segue nas trilhas da antiguidade a passos largos rumo à irrelevância.

A não ser que a juventude, mais uma vez, tome as rédeas do destino e hakeie o status quo. Exija divórcio dos oligarcas modernos e crie seu próprio caminho.

Isto é um convite.

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