De onde veio tanta gente defendendo a Backer?

O caso da contaminação da cerveja Belorizontina tem vários lados que merecem uma análise, mas para este blog o mais importante é perguntar: “Por que tanta gente de esquerda, de repente, está defendendo a Backer?” Afinal, é uma empresa, que tem um lucro imenso, extrai mais valia de seus trabalhadores e tem responsabilidade pela segurança do produto que vende.

A resposta, provavelmente está nas raízes da nossa sociedade de consumo. Segura, que a viagem começa em Marx, e termina na pós-modernidade.

Nos Manuscritos Econômico-Filosóficos, Karl Marx tenta entender como a alienação nos afeta. Ele propõe que o que nos faz humanos é nossa capacidade de transformar o mundo em que vivemos através das nossas ações, que ele chama de “trabalho”. Que outros animais vivem em um mundo natural, mas nós criamos nosso próprio mundo através do nosso trabalho. Mas que no trabalho assalariado, nossa força de transformar o mundo é removida de nós, alienada de nós. Sobra um salário com o qual sobrevivemos e a sensação de gastarmos toda a nossa energia em algo que não faz sentido. Por isso, começaríamos a buscar nossa realização humana no que temos de animal, em vez de humano: comer, beber e transar. Reflita, ponha para descansar na assadeira e reserve.

Além disso, n’O Capital ele defende que no sistema capitalista as mercadorias são fetichizadas. Elas deixam de ser meros objetos, produzidos por trabalho humano que tem apenas seu valor de uso (o valor de uso da cerveja é ser bebida, por exemplo) e passam a ser algo em si, carregadas de mistério. Em vez de serem um objeto, feito pelas nossas mãos, dependentes de nós, passamos a ver uma essência, sentido, significado, nessas mercadorias. Passam a ter poder, como estátuas de santos. Garantir status, renome, poder (lembrando que o dinheiro em si é uma mercadoria). Processe, deixe escorrer e reserve.

No século XX, Theodor Adorno percebe que os objetos da cultura, como quadros, filmes, livros, músicas, também são mercadorias, produzidas por uma “indústria cultural“. Que a separação que as pessoas costumavam ver entre o mundo da cultura e o da economia é uma ilusão. Que a cultura, que se confunde com a identidade, que é onde procuramos respostas para perguntas como “quem sou eu?” e “o que faz a vida valer a pena?” tem uma fabricação tão artificial, comandada por desejos econômicos, de lucro, quanto as salsichas ou as rodas de liga leve. Desenforme, vire de ponta cabeça, traga para o próximo parágrafo.

Zygmunt Bauman, no Modernidade Líquida, inverteu a lógica de Adorno e percebeu que não apenas a cultura é mercadoria, mas que as mercadorias são cultura. Que na sociedade de consumo, tudo pode ser comprado e vendido, e a identidade em grande parte é definida por “que mercadorias eu comprei”. Ter rodas de liga leve no carro, usar jaqueta de couro, saia indiana, são sinais de identidade mediados por mercadorias. As mercadorias, que não são apenas objetos, tem o poder de dizer quem você é. Pegue a mercadoria fetichizada, já escorrida e use como recheio. Bauman chama isto de supermercado de identidades. O mercado onde é possível comprar e vender quem somos, com facilidade e superficialidade.

Esse “quem somos?”, que busca responder àquela necessidade de nos realizarmos como seres humanos vai estar ligado ao lazer, à satisfação dos nossos desejos animais, porque o trabalho é alienado. E a cerveja é uma mercadoria perfeita para construir essa identidade. Ponha na assadeira que estava descansando e leve ao forno para gratinar. Consumir “boas cervejas” puro malte não é apenas comprar algo que vale seu valor de uso. É comprar uma identidade que vem junto com a mercadoria fetichizada. E comprar essa identidade é defender essa identidade, porque se “quem eu sou?” é respondido (não exclusivamente) pela cerveja que eu tomo, qualquer ataque à cerveja é um ataque à minha subjetividade, um ataque pessoal.

É isso que as empresas espertas já descobriram e por isso investem tanto em publicidade institucional. Em fazer os consumidores dos seus produtos verem a empresa como “legal”, “alternativa”, “moderna”. É isso que Netflix, Boticário, Natura e outras fazem.

A torta de climão está pronta, no meio de um problema sério de controle de qualidade da Backer, de repente, metade da esquerda estava defendendo burguês safado com teorias da conspiração sobre sabotagem, em vez de cobrar apoio às vítimas.

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